Primeiro solo de Lenine é 'mistura'
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Reportagem Local
Mais um pernambucano tenta seu lugar na proa da nova música pop
brasileira. O cantor, compositor e violonista Lenine, 38, lança
"O Dia em Que Faremos Contato", seu primeiro disco solo.
Após duas parcerias ("Baque Solto", com Lula Queiroga, e "Olho de
Peixe", com Marcos Suzano), ele, sozinho, está mais pernambucano
e universal que antes.
"Moro no Rio de Janeiro desde os 17 anos e isso reflete na maneira como
componho. A sensação de despatriamento é um subterfúgio
para exercitar a composição cosmopolita", diz. Antes apaixonado
por rock pro gressivo e pelo clube da esquina mineiro, Lenine se aproxima
dos sons tipicamente brasileiros, agora alicerçados em samplers
e recursos tecnológicos.
Ele explica o design espacial e samplers futuristas de "O Dia em Que Faremos
Contato": "Ficção científica é minha grande
paixão. Minha referência não é a música,
mas a imagem em movimento, o cinema, as histórias em quadri nhos.
Sou cineasta frustrado".
"Movimento"
"Até há algum tempo havia muito gueto no cenário musical,
o funk, o rock, a MPB no seu pedestal, o samba. Eu transitava por vários
desses estilos, mas nunca fui de participar de gueto. Por isso fui compor."
Para ele, tudo mudou. "Acho que o Brasil nunca andou tão bem das
pernas. O abismo começou a ruir com a tecnologia - e a perda do
medo dela pelos artistas brasileiros - e aí se descortinou um universo
interessante. Foi Chico Science quem propiciou isso ao Brasil."
O conterrâneo Science, embora tenha lançado seu trabalho "afrociberdélico"
em primeiro lugar, é tido por Lenine mais como um contemporâneo
que como influência.
"Sua crônica, do hip hop com baixas frequências do maracatu,
é parecida com a de Planet Hemp, O Rappa, Daúde, Mundo Livre
(que tem resolução sonora mais inusitada). Foi preciso acontecer
Chico Science, Fernanda Abreu, para a música popular poder viver
isso."
"Ao mesmo tempo que adoro Beck, Ben Harper e David Mathews Band, sei que
não existiria Chico Science sem Alceu Valença, que não
existiria sem Capiba. Foi necessário uma revolução
para que se viesse a tocar música do Brasil no Brasil."
Ele diz ter horror à palavra "movimento", mas admite que uma movimentação
espontânea pode ser detectada no Brasil dos 90.
"Onde vou há gente nova - Pedro Luís, Arícia Mess,
Boato -, todos no mesmo processo, todos cronistas da época, individuais
e individualistas", diz.
"Todos têm na integridade o elo que faltava para unir as ilhas. É
o que quero dizer em 'A Ponte': somos um grupo de ilhas cercadas de pontes
por todos os lados. É aqui que acontece a mistura."
Concluindo, faz um apelo a seu consumidor: "Gostaria de pedir às
pessoas que ouvissem o disco bem alto, com som na caixa. É um disco
de 'paudurescência' ".
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